22.3.16

tempos de ódio

3 de maio

No meu tempo de escola primária, algumas  crédulas e ingénuas pessoas, a quem dávamos o respeitoso nome de mestres, ensinaram-me que o homem, além de ser um animal racional, era, também, por graça particular de Deus, o único que de tal fortuna se podia gabar. Ora, sendo as primeiras lições aquelas que mais perduram no nosso espírito, ainda que, muitas vezes, ao logo da vida, julguemos tê-las esquecido, vivi durante muitos anos aferrado à crença de que, apesar de umas tantas contrariedades e contradições, esta espécie de que faço parte usava a cabeça como aposento e escritório da razão. Certo era que o pintor Goya, surdo e sábio, me protestava que é no sono dela que se engendram os monstros, mas eu argumentava que, não podendo ser negado o surgimento dessas avantesmas, tal só acontecia quando a razão, pobrezinha, cansada da obrigação de ser razonável, se deixava vencer pela fadiga e mergulhava no esquecimento de si própria. Chegado agora a estes dias,os meus e os do mundo, vejo-me diante de duas probabilidades: ou a razão, no homem, não faz senão dormir e engendrar monstros, ou o homem, sendo indubitavelmente um animal enter os animais, é, também indubitavelmente, o mais irracional de todos eles. Vou-me inclinando cada vez mais para a segunda hipótese, não por ser eu morbidamente propenso a filosofias pessimistas, mas porque o espetáculo do mundo é, em minha fraca opinião, e de todos os pontos de vista, uma demonstração explícita e evidente do que chamo a irracionalidade humana. Vemos o abismo, está aí diante dos olhos, e contudo avançamos para ele como uma multidão de lemings suicidas, com a capital diferença de que, de caminho, nos vamos entretendo a trucidar-nos uns aos outros.


(José Saramago, Cadernos de Lanzarote, Vol. I).

20.10.15

entre pontes

acabo de dar o pontapé inicial no trecho de regresso da minha tão desejada viagem de férias. dizem que quando você vem de um ritmo muito acelerado e para, suspende a rotina, leva um tempo para desacelerar.

de repente, vi-me em outro país fazendo as mesmas coisas que fazia quando ainda estava trabalhando: acordando cedo, alimentado planilhas de gastos e cronometrando roteiros e horários. para ajudar, pessoas que já estiveram no lugar - e na melhor das intenções, evidentemente - contribuíam com informações sobre o que eu deveria comer, que sítio eu deveria visitar e o que eu não poderia deixar de fazer. isso, para um ser humano mezzo desastrado, mezzo ansioso como eu, estava a ponto de me poner loca.

eu tinha, ainda, um destino importante a conhecer quando acordei cansada das andanças no dia anterior e apenas disse a mim mesma "não vou". são férias. é descanso. é pra ser divertido, não mais um duro fardo a carregar nessa já difícil vida de obrigações e calendários.

não por acaso, justamente nessa minha última noite, sonhei que para chegar a um lugar eu tinha que andar como num jogo do mário, naquela etapa em que a gente vai pulando no ar de bloco em bloco, até atingir o destino desejado: a fase seguinte. e, como no jogo do mário, um salto mal calculado pode ser fatal, é perder uma vidinha ou tomar game over mesmo. é um troço por demais simbólico para que eu não ficasse incomodada.



o sonho só emergiu à memória quando eu já havia despachado a bagagem e estava no pátio de alimentação, com vista para muitas pessoas, também ali só de passagem. muitas conversavam, algumas trabalhavam, outras comiam olhando para baixo. interessou-me saber no que elas pensavam. e, instantaneamente, lembrei-me de todas as vezes em que eu comi naquela mesma cadeia de restaurantes, vinda de algum lugar, cansada, ou indo para algum outro lugar, atrasada, ou voltando para casa para descansar, ou para continuar trabalhando de lá. sempre para alguma coisa. parece que a minha vida toda foi vivida de um lugar a outro. sempre morando em pontes.

viver entre pontes é uma estratégia meio arriscada, porque na busca sôfrega por achar um significado para o que você está fazendo, você pode, tristemente, encontrar significado nenhum. aí, você percebe que passou a infância esperando a adolescência, a adolescência esperando a idade adulta, a idade adulta para começar a construir e adquirir coisas, como viagens de férias, para onde você vai para cumprir novas metas.

daí, pode parecer clichê - na verdade, estou bem convencida de que não apenas parece, como é o maior clichê da história do futebol - mas a ponte do presente vai, lentamente, se desmanchando à medida que você finalmente chega no futuro desejado, até que outra fase do jogo comece e você, de novo, esteja a se colocar novamente em movimento. tudo de novo.

quero que meus próximos dias de férias sejam realmente de paz e descanso, mas, mais que qualquer outra coisa, de agora; mesmo que o agora seja uma interminável espera no aeroporto. Já dizem que há metafísica bastante em não pensar em nada.

17.9.15

Um escuro que eu já conheço

Reza a lenda que essa história realmente aconteceu:

- Mãe, vamo embora daqui?
- Mas já ‘tá na hora de dormir, filha.
- É por isso. ‘Tá escuro. 
- Mas em casa você dorme no escuro! 
- Eu sei, mas o escuro da minha casa eu já conheço. 

A filha da história, segundo essa mesma lenda, sou eu, aos três ou quatro anos. Acreditem-me, pequenos internautas, eu já fui bem jovem, por mais que eu negue. Minha mãe adorava contar essa história. As mães têm anedotas sobre os filhos, que quanto mais repetidas ao longo do tempo, mais são adoçadas por uma suave capa de ternura. Fica sendo sempre uma história bonitinha.

Eu, hoje, moro numa região nada postalizável(*) do Centro da cidade. É um misto de local de festividades, de barulhos vários, buzinaços e urina. Meu bairro cheira a urina e abandono. Só na quadra onde fica meu prédio há três funerárias, um prédio abandonado e dois postes sem iluminação.

Por coincidência, diante dos dois postes sem iluminação há casarões que me parecem ocupados por muitas famílias. Tem sempre gente entrando e saindo, e muita gente diferente fazendo isso. Não que eu fique espionando, mas eu ando muito a pé e sou boa fisionomista. Poucos rostos se repetem.

Estou sempre andando por ali, é minha quadra. Às vezes, saio de casa tarde da noite. Embora me considere uma pessoa precavida e alerta, não me privo de ir a certos lugares por medo da violência urbana. Moro numa grande metrópole, há muitos marginalizados dividindo o mesmo espaço que eu, há pobreza e miséria, e a miséria é uma mãe fecunda. Mas em nenhuma das vezes em que passei pelos trechos pouco iluminados da rua senti medo. É um fenômeno curioso. 

Não sei se, ao contrário do que acredito, sou uma pessoa com baixo senso de preservação e me exponho exageradamente aos perigos desta vida - que são demais para quem tem paixão, é sempre válido lembrar -, se é porque a sensação de insegurança é, na verdade, uma grande falácia inventada pela televisão ou se só porque o escuro da minha casa eu já conheço. Mas quando a gente estabelece uma relação de casa com algum lugar, algo na gente muda. Deve ser por isso que eu jamais teria vocação para ser viajante. Do que eu mais gosto é sempre voltar pro escuro de casa.

 
(*) Não, essa palavra não existe. Espero que me perdoem o atrevimento.

27.8.15

história sem data



achei essas folhas soltas, presas na pasta de rascunho do meu email. história sem data, mas ainda me aquece a ternura.

 
 *****

mas é catupiry de verdade ou daqueles catupiry xexelento?” a sabrina perguntou, não sei pra quem. 

estou cá a fazer um esforço mental pra me lembrar exatamente qual foi o contexto, mas não me recordo de nada a não ser da frase. devia ter sido num almoço na leiteria, ou numa viagem à casa godinho, alguém anotando pedido e ela me solta essa frase. 

“aff, que fresca”, pensei. pra mim, catupiry é catupiry, não tem como errar. não existe catupiry ruim, nem pipoca ruim, nem coxinha ruim (ops, existe sim). a gente ainda não era amiga nessa época. a frase ficou armazenada na minha memória assustadora. de vez em quando eu acho que a informação se perdeu de vez, foi parar na dimensão paralela, no portal para o outro mundo que é o das memórias completamente esquecidas; até hoje, quando fui comer uma empadinha de frango com catupiry na firma e o catupiry era esquisito. perguntei pra mim mesma “que que tem de errado com essa empadinha?”. segundos depois “ah, o catupiry xexelento”.


ainda ontem, comovida pela morte do robin williams, fui rever pela décima vez “good will hunting”. adoro as cenas da sessão de terapia, adoro o consultório do robin williams. depois de umas três ou quatro sessões, ainda no processo de conquistar o paciente, o psicólogo diz “minha mulher peidava dormindo. Peidava tão alto que uma vez ela acordou o cachorro. de outra vez ela acordou a si mesma. perguntou-me ‘foi você?’ e eu disse ‘fui, me desculpe’. eu não tive coragem de contar a ela”. pausa. ambos riem largamente. “depois de dois anos que ela morreu de câncer, essa é a lembrança mais carinhosa que guardo. essas idiossincrasias”.

Nós, matéria e inteligência, água, cálcio, carbono, princípios, memórias e idiossincrasias. é o que nos diferencia uns dos outros, é o que nos faz únicos. é o que nos faz ter saudade, é o que nos faz querer estar juntos, é o que nos faz sorrir ao descobrir os motivos por que a empadinha está ruim. ninguém merece comer empadinha de frango com catupiry xexelento.

29.7.15

nem partida, nem chegada: travessia

Talvez eu tenha me tornado uma daquelas mães monotemáticas que não têm outro assunto que não seja os próprios filhos, com o único detalhe que eu não tenho filhos, só três sobrinhas encantadoras. Ultimamente, esta – sobrinhas – é a única temática que me interessa e é sobre ela que eu tenho mais prazer de escrever. É que é tão legal ter sobrinhas! É tão legal ver umas pessoas que não têm mais que cinco anos de existência saberem tantas coisas, fico ~perplecta~.
 

Neste fim de semana tive pouco tempo com as meninas, porque elas, adultonas, estavam viajando com a bisavó. Morri de abandono, mas paciência, quanto mais família para amá-las, melhor para elas. Para essa tia ressentida sobrou apenas umas 3h no fim de semana inteiro.  

<<< pausa para a compaixão do leitor >>>

Pois bem, domingo à noite fui levá-las em casa, quando, espontaneamente, a Júlia começou agir com meu navegador. “Vira aqui”, “agora vai reto”, “segue aquela moto” (sério, de onde ela tirou isso?). 

Mais adiante, “sobe essa montanha” (um pequeno aclive na rua), "agora vira aqui" e, finalmente “eeeee, chegou, você conseguiu!” (Luísa, a motivacional). Antes de cruzar a última rua, um ônibus vinha pela esquerda e entraria na rua em que estávamos, em sentido contrário, perguntei “E agora, o que eu faço?”. “Agora você espera o ônibus passar a faz bi-bi”. Eu só conseguia rir, talvez a única reação possível quando você vê gente de quem você gosta fazendo coisas tão legais.

Não foi mais que um simples trajeto de 1,3km e, no entanto, que momento de ternura esse, de ver como as pequenas criaturas vão descrevendo a sua própria trajetória, aprendendo que tem que subir montanha ou virar perto “daquele mato”. Eu, que brinco de refazer mentalmente caminhos antigos só pra não perder o costume – e evitar o Alzheimer –, nunca tinha participado de uma viagem tão curta e tão cheia de significados. Mas acho que neste domingo o único significado possível foi ver como elas crescem, como crescem bonitamente, e como eu sou feliz por ver isso acontecer.


8.7.15

não é tranquilo

Sempre reagi a boa parte das violências que experimentamos com um “dá pra viver”. Sou acomodada, preguiçosa, acreditava ser possível conviver com quase tudo, viver com quase nada, não ser preciso ter sangue nos olhos ou pressa, é preciso dar um passo de cada vez, a humanidade não dá saltos e todo o resto.

Mas hoje caiu uma pedra no fundo do lago, uma pedra pesada, caiu com força; e despertou toda aquela poeira assentada no fundo do açude (lago não, açude, que é mais modesto), com raiva. Eu estou com raiva do mundo por todos esses anos, com raiva de mim por toda essa negligência, porque no fundo não é tranquilo, sabe, não dá pra viver desse jeito.

Não é tranquilo viver numa sociedade que mata suas mulheres pelas mãos de seus companheiros, no seio do ambiente doméstico, que deveria acolhê-las. Não dá pra conviver com estatísticas que demonstram que mulheres são agredidas por seus companheiros enquanto o colega diz que isso ocorre porque o Brasil é violento e nada prova que a violência tem substrato na questão de gênero.

Não é tranquilo você pensar em pedir ajuda aos amigos homens para caminhar em certos locais, ou você evitar caminhar em certos locais, durante o dia ou durante a noite, porque a taxa de estupros declarados no seu país dois anos atrás foi de 143 mil. E a estimativa é que apenas 35% de tais crimes sejam declarados.

Não é tranquilo, sabe, você pensar em atravessar a rua sempre que em sua direção vem vindo um homem, porque você nunca sabe se ele vai apenas cruzar com você ou se vai assediá-la. Se vai dizer qualquer coisa inteligível, ininteligível, um sussurro ou um ruído, fazendo com que você se sinta primeiro suja, depois indignada porque não teve o direito de apenas seguir seu caminho em paz.

Não é tranquilo você deixar de escolher uma roupa pensando no que o outro vai pensar dela, se vai achar curta, se vai achar transparente, se vai achar decotada, ainda que você nem se considere alguém que gosta de roupas pequenas, transparentes e decotadas. Pensando bem, também não é tranquilo você estar sempre pedindo desculpas e se justificando “e eu nem gosto de decote”. Não é tranquilo você não poder gostar.

Não é tranquilo você ser aquela pessoa que diz “mas qual o problema?!”, sempre que alguém decide julgar ou criticar o comportamento de outra mulher. A gente não deveria ter de perguntar isso. Devia ser pressuposto. Não é tranquilo quando você precisa provocar esta conversa com  outras mulheres, que mesmo vítimas deste jugo, aceitam-no, apoiam-no e reproduzem-no. Não é tranquilo você perguntar isso pra si mesma, porque mesmo tentando estar alerta o tempo inteiro, você também falha.

Não é tranquilo viver num mundo que desde cedo nos classifica, nos condiciona, nos julga, nos erotiza e não nos perdoa pelos erros que cometemos porque somos humanos. Quando você nasce mulher, você tem de dar conta de tudo. Quando você é mulher você não pode errar, porque se você erra, erra porque você é mulher.


Por isso, depois de hoje, depois de todos os ontens em que eu apenas me calei e me omiti, decidi que basta, sabe? Chega de deixar tudo pra lá. Não vou mais deixar pra lá, não vou mais achar que dá pra administrar isso com classe e elegância. Não é tranquilo viver desse jeito; não dá pra viver mansamente.

7.7.15

os batutinhas

Seo Abel é o dono/gerente/administrador/CEO e recepcionista da Lavanderia Rio de Janeiro, perto da minha casa. Quinzenalmente ele me provê com toalhas e lençóis limpos, por um preço justo. Ao seu lado, na condução dos negócios, atuam Dona Marília, a patroa, e a Laurinha, que sempre corrige as contas que eu faço de cabeça ao multiplicar peso x valor do quilo de roupa suja. Já nem me esforço mais.

Seo Abel é um dos Meus Estranhos Favoritos, essas pessoas com quem a gente não tem muita familiaridade, mas que de certa forma fazem parte da nossa rotina, com uma certa dose de brandura. Ele fala com sotaque português "bom dia, minha menina".

Cheguei na Lavanderia hoje com duas sacolas cheias de roupas de cama e toalhas, além das miudezas de sempre. "Miúdas ou graúdas, nós lavamos tudo", dizia ele, enquanto contava as peças. Sentados na recepção também estavam o senhor gaúcho que fora da equipe de paraquedistas da força aérea nacional e um outro comparsa deles, meu vizinho de andar, que chamo de Seo Halley Joel Osment do Futuro - tenho certeza que ele é o menino que envelheceu. Eu adoro os óculos anos 70 do Seo Halley. E o gato gordo cinza que sempre a tudo assiste, impassível, impenetrável do alto de sua dignidade felina.

Enfim, lá estavam os habitués locais discutindo ou silenciando sobre seus assuntos habituais quando, sem mais nem menos, Seo Halley se levantou e tomou o rumo de casa, nem se despediu. Cinco minutos de silêncio depois, Seo Abel solta um "é, não pode ser contrariado". O paraquedista disse "mas todo mundo sabe que em quarto particular não tem horário de visita". Só faltou um "eh", essas interjeições tão típicas das melhor idade. Basicamente, Seo Haley ficou indignado porque não lhe deram razão e abandonou o recreio mais cedo.

Achei muito divertida aquela cena. Pensei naqueles minutos de constrangedor silêncio depois que alguém se irrita, solta uma farpa, surta, ninguém entende bem o que aconteceu e depois tudo depois volta ao normal; alguém sempre comenta qualquer coisa quando o surtado se ausenta. Eu olhei para aquele velhinho enfezado saindo de cena de bengala e pro Seo Abel, de suspensório, e só pensei nos batutinhas, nuns menininhos jogando birosca e depois pegando as bolinhas todas e socando nos bolsos depois de um desentendimento. A gente envelhece, mas alguns dos nossos hábitos permanecem lá presos lá numa juventude imaculada.





((Em tempo: o Paraquedista me disse que minha tosse não é alérgica, eu tenho que tomar um expectorante pra me livrar da secreção. Achei melhor dar ouvidos))

5.7.15

sobre sundaes atrás

Não tem coisa melhor pra me despertar reminiscências que um ônibus vazio aos domingos. Um lugar na janela é uma espécie de estação espacial, em que você se coloca como expectador, sentado, sem movimento, enquanto toda a vida acontece do lado de fora. Da janela do ônibus eu via pessoas desviando de poças, se abrigando sob seus guarda-chuvas e, atrás delas, a baía de Guanabara tristemente descolorida em cinquenta tons de cinza. 

De toooodas as cidades em que já morei (cinco), o carioca é o mais curioso dos invernos. O inverno no Rio de Janeiro é molhado. A temperatura não cai mais que uns três graus; não venta, não gea (pode dizer isso???), não neva. Só fica aquela chuvinha intermitente, ou chuvisco - porque garoa é um fenômeno que só existe em São Paulo - e o desconforto de uma brisa gelada. Pra todos os efeitos, é inverno. Mas um clima desses não é digno de domingo.

Domingo era dia de sundae. Quer dizer, não era em todos os domingos que tinha sundae. Eu nem saberia precisar a periodicidade. Mas me lembro que em dezembro tinha, e me lembro que quando estávamos ricas - quando minha mãe havia recebido salário - ela nos fazia esse mimo. A sensação de me sentar à mesa da sorveteria deve ser a mesma de quando um exército conquista um território; ela me deixava pedir o que quisesse e eu pedia sundae, de chocolate e morango, que vinha numa taça alta com três bolas de sorvete, uma caudalosa cobertura de chocolate, marshmallow, farofa de amendoim e os dois canudos de waffle. Se houvesse uma definição engolível de paraíso, para mim, seria aquela.

Mas então eu pisquei e quando abri os olhos novamente o sundae havia perdido a graça. Quando provei outro, muitos anos depois, achei doce demais, sorvete demais, marshmallow demais, eu nem gosto de marshmallow. E também, deixou de ser um evento, uma vez por mês, ou por semestre, ou por ano, não lembro bem, receber aquela recompensa por eu ter me comportado num período bem difícil. Não passava da minha obrigação de filha me comportar, mas acho que no fundo ela gostava de me recompensar por isso. Talvez tenha sido isso mesmo. O sundae perdeu o valor simbólico depois eu passei a pagar por ele. Mas ainda assim, sempre que vou a Sertãozinho (quase nunca) e casualmente passo pela praça, a sensação mais alegre que me vem à mente é a de triturar amendoim, com a boca cheia de marshmallow.

27.6.15

verdades sobre a festa junina



Toda vez que chega o mês de junho chega com ele a angústia de saber se eu terei convite para alguma festa junina ou quermesse. A motivação, entretanto, é puramente famélica.

Confesso que depois que fiquei adulta, isto é, depois que fiz uns 9 anos, o acontecimento "festa junina" nunca mais chamou a minha intenção. Faz uns bons pares de anos que eu só me preocupo em saber onde vai ter bolo cremoso de milho e quentão disponíveis.

No entanto, o envelhecimento natural do ser humano fez com que eu revivesse a trágica experiência de frequentar festas juninas infantis, agora na qualidade de convidada das meninas e este mero detalhe faz toda a diferença. É possível até se divertir com as apresentações da escola. Duas, das minhas três sobrinhas, fizeram apresentações aos pais hoje, e o resultado foi hilário. 

Uma manhã de observação e eu concluí algumas coisinhas:

1) Festa junina continua sendo uma grande ocasião para uns e um momento trágico para outros. Pode observar que ao lado de lindas meninas enfeitadas e de caipiras com cavanhaque feito com canetinha sempre tem um coitado vivendo a pior experiência da sua pouca vida (segundo a Júlia, "O Miguel tava chorando porque ele não queria ir lá fazer a apresentação para a mãe dele");

2) Há pais que não se importam de as filhas de seis anos usarem botas de salto;

3) Existem pais que preferem assistir a apresentação dos filhos em casa. Isso explica por que eles não se incomodam em perder a chance de cruzar seu olhar com o dos pequenos enquanto estão filmando tudo de seu smartphone;

4) Comida de festa junina é sempre boa, mesmo que o cachorro quente seja seco e sem purê, mesmo que a paçoquinha não se desfaça. Se tiver algodão doce, então, praticamente todos os cardápios estarão salvos;

5) Isso é um pouco assustador, mas não pude não notar: meninas estão sensualizando cada vez mais cedo. Passei duas horas na escola e vi garotas com sorriso congelado, duckface e poses sensuais para fotos. Você não leu errado, eu disse mesmo poses sensuais, foi isso mesmo que me pareceu. E elas não tinham no máximo seis anos. Mas isso não deve ser privilégio de festas juninas.

6) Nem toda criança é Johanna Colon. Na verdade, me parece - como na vida - que a maioria é apenas ok. Eles são engraçados e graciosos a seu modo para seus pais, é certo, mas só para seus pais. E há ainda um considerável número de tímidas, distraídas e daquelas que não estão muito a fim. A minha família, então, ainda se alista na fileira das completamente descoordenadas. Minhas sobrinhas - como a mãe delas, aliás - provaram que a genética sempre fala mais alto e conseguiram dar um show à parte não fazendo qualquer movimento durante a música e fugindo ao ritmo, quando se arriscavam a fazer algum.

E, finalmente,

7) Professoras de maternal/jardim/alfabetização são anjos missionários, porque só isso explica a vocação de não apenas treinar vinte gremlins nos ensaios, colocando-os no círculo amarelo, "no círculo amarelo, gente, vem pro círculo amarelo, dá a mão" como ainda repetir a coreografia com eles em meio a pais ansiosos por filmar tudo no smartphone;






20.6.15

mensagens ocultas

Desde que minha carreira de costureira/modelista/estilista/modista francesa deslanchou não tenho tido tempo de fazer mais nada. São muitas horas diárias dedicadas a aprender a engenhosa arte de coser uns trapos; até o momento eu já tive a honra de conseguir concluir três peças: uma cortina de pia (ficou péssima), outra cortina de pia (ficou até que boazinha) e uma bolsinha de moedas, essa ficou ó: uma droga. 

Tudo porque eu achei que já tivesse tirado de letra as costuras retas e me arrisquei a fazer curvas, claro que só poderia ter dado errado. Não tem aquele ditado que diz que vento não faz curva? Então, a minha pobre Singer também não faz, quem tem que dominar a arte sou eu, eu mesma, este ser humano que, obviamente, falhou. Aos poucos vou me dando conta de que costurar não é apenas sobre colocar dois paninhos para serem furados pela agulha alucinadamente agitada por um motor. É sobre muitas outras coisas.

Ontem mesmo eu coloquei na cabeça que iria fazer uns vestidinhos-bata para minhas sobrinhas, e ai da mãe delas se não me render esta homenagem, vestindo-as, tirando fotos e postando no Facebook!

Por isso, fui hoje cedo à Saara comprar os tecidos. Pessoas do resto do Brasil não conhecem o conceito de Saara, então eu explico: Saara - Sociedade dos Amigos da Rua da Alfândega - é um complexo gastro-comercial no Centro do Rio de Janeiro composto por três ruas principais e diversas minitravessas onde se pode encontrar de tudo, de especiarias árabes a apetrechos de Carnaval. Eu o chamo carinhosamente de Canaã, porque sei que, no fundo, deus, ao criar o mundo nos prometeu um lugar como esse para nos livrar do tédio da existência.

Depois de ter visitado umas cinco ou seis casas de tecido, cansada daquela corrida insana de tentar ser atendida, decidi relaxar uma loja enquanto esperava eternamente que chegasse minha vez. De repente, vi-me seguindo o vendedor igual a uma alma penada para me assegurar de que eu seria a próxima da fila. Quem estava sendo atendida naquele momento era uma mulher escolhendo dois diferentes tipos de laise branco. 

Laise é uma fofura de tecido, traz-me à mente uma porção sortida de memórias ternas. Lembra-me pano de cobrir mesa, vestido da minha irmã bebê, é uma espécie de pureza em forma de fazenda. Eram duas tramas lindas, ela estava em dúvida. Escolheu a que eu não escolheria, eu teria ficado com a preterida, com detalhes de gotinha. Protestei "mas este é tão bonito, tem gotinhas". Ela não se fez de rogada "este  muito batido. Todo mundo no candomblé tem, vou tentar este de cá". Peguei de novo o laise de gotinhas e suspirei "queria já saber fazer vestidos. Eu só sei fazer costura reta". 

Nessa hora ela olhou para mim e disse "ah, mas você vai aprender sim. Você vai viver muito. Calma. Tranquila. Só o que você precisa é se abrir mais. Você é muito fechada, protegida. Precisa sorrir mais, menina, você sabe".

Não foi um choque, não foi uma grande surpresa, sequer fiquei assustada. Só achei bonito estar ali e ouvir aquilo. Comentei "que coisa boa eu ter vindo parar aqui nessa loja!", porque foi mesmo uma feliz coincidência. Dentro daqueles algoritmos de "O Andar do Bêbado", ter decidido parar justo naquela loja, por obra do acaso, acabou tendo um resultado muito positivo.

Eu posso ou não acreditar em mensagens ocultas, em frases de biscoito da sorte ou em horóscopo. Pouco importa, na verdade, no que você acredita, mas no que você faz a partir do que acredita. Não me perguntei se a mulher da loja leu minha aura ou se apenas usou palavras que qualquer pessoa madura e sensível usaria ao ler determinada situação. Importa que o que ela disse mudou o meu dia; que outras frases dela tenham mudado deste modo a de outras pessoas também. Que as nossas intervenções na vida alheia também tenham este sentido.